Hoje, 95% dos IFAs são importados e mercado brasileiro já enfrenta escassez de antibiótico e dipirona
A ABIQUIFI (Associação Brasileira da Indústria de Insumos Farmacêuticos) e a CAPDROFAR (Cámara Argentina de Productores de Farmoquímicos), entidade que reúne as principais empresas de produtos farmoquímicos da Argentina, vão iniciar rodadas de negócios para o desenvolvimento, transferência de tecnologia e produção de insumos. O primeiro encontro será na FCE Pharma, maior evento do setor na América Latina, programado para os dias 7 a 9 de junho, no São Paulo Expo.
As entidades, que já assinaram um convênio de parceria, agora querem colocar em prática um intercâmbio de produção de moléculas para medicamentos entre os dois países. “Estamos buscando parcerias para aumentarmos a possibilidade de suprirmos nossa demanda interna, na tentativa de reduzir o impacto da escassez de IFA (Insumo Farmacêutico Ativo) para a nossa indústria e mercado”, afirma Norberto Prestes, presidente executivo da ABIQUIFI.
Num trabalho conjunto entre as entidades brasileira e argentina, foram identificados aproximadamente 400 insumos produzidos nos dois países, dos quais 20 são produzidos por ambos. Por isso, esse intercâmbio de produção poderia impactar positivamente o setor.
A iniciativa tem como objetivo também a busca de novos caminhos para reduzir a dependência brasileira da indústria chinesa. Hoje, 95% dos IFAs usados pelas indústrias farmacêuticas no Brasil são importados, sendo que 68% vêm da China. O Brasil enfrenta escassez de insumos e matéria-prima desde o início da pandemia, mas agora, com a guerra na Ucrânia e o novo lockdown na China, a oferta desses produtos no mercado foi reduzida ainda mais. “Estamos sofrendo com a falta de medicamentos básicos como antibiótico e dipirona. Isso é muito preocupante”, afirma Prestes.
INVESTIMENTOS
Além de convênios com outros parceiros comerciais, a ABIQUIFI também tem se movimentado para a criação de uma política pública que incentive a produção de mais insumos internamente. “Temos de entender que essa deve ser uma estratégia de saúde pública. O SUS é o maior comprador de medicamentos no Brasil. A gente precisa olhar isso com o senso de urgência que a situação merece”, explica Norberto Prestes.
Um estudo encomendado pela entidade à Clarivate Analytics – empresa especialista em pesquisa científica, análises de patentes e inteligência farmacêutica – mapeou os 50 insumos mais usados para medicamentos no Brasil na rede privada (farmácias, hospitais e clínicas), o que corresponde a 30% do mercado. O levantamento levou em consideração não apenas a quantidade, mas avaliou preço, perspectiva de uso futuro do medicamento pela população brasileira, valor agregado, o tipo de molécula, entre outros critérios. A pesquisa dá um indicativo de quais seriam os tipos de insumos mais importantes para a saúde dos brasileiros e os principais problemas de saúde a serem considerados. Entre os IFAs listados na análise, 30% correspondem a insumos usados em medicamentos para doenças cardiovasculares, 16% para doenças do sistema imunológico e 10% para doenças do sistema nervoso.
Segundo o presidente da ABIQUIFI, o país precisaria investir no mínimo 2 bilhão de reais dentro dos próximos 5 a 10 anos para conseguir ampliar a produção de 5% para 20% de todos os insumos utilizados no Brasil. Ele usa como exemplo os países como Índia e Estados Unidos. O governo indiano investiu nos últimos anos 8 bilhões de dólares para produzir 15 moléculas e intermediários, que as autoridades consideravam estratégicas em meio à pandemia. Os Estados Unidos, que hoje importam 70% dos insumos de medicamentos, planejam reconstruir sua capacidade industrial para fabricar internamente 150 diferentes IFAs. “Precisamos pensar que se trata de algo estratégico investir em biotecnologia, novas soluções de startups para, quem sabe, nos tornarmos exportadores de insumos”, conclui Norberto Prestes.