Alguns laboratórios nacionais, como Biolab e Cellera Farma, usam princípios ativos ou insumos produzidos por fabricantes indianos
O isolamento populacional adotado pelo governo indiano contra o surto do coronavírus pode trazer consequências no fornecimento de matérias-primas à indústria farmacêutica brasileira. Algumas empresas usam princípios ativos ou insumos produzidos por fabricantes indianos. O presidente executivo do Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos (Sindusfarma), Nelson Mussolini, disse que o risco de desabastecimento não será imediato, pois as empresas têm estoques para, em média, quatro ou cinco meses.
“A China é muito importante, mas a Índia fornece muito insumo para a indústria brasileira. Acredito que a participação dos dois países gira em torno de 30% a 35% cada um no fornecimento de princípios ativos para as farmacêuticas nacionais. Por isso, algumas empresas estão tendo problemas no embarque desses produtos”, disse Mussolini.
O dirigente informou que um dos associados do Sindusfarma pagou 100% a mais para conseguir embarcar os insumos. “Alguns produtos podem faltar no mercado daqui alguns meses, caso a situação não se estabilize nos próximos meses”, afirmou.
A Biolab, por exemplo, teve embarques cancelados de insumos para um medicamento após a decisão. Cerca de 50% dos insumos são da Índia, segundo o presidente, Cleiton de Castro Marques. “Estamos na iminência de desabastecimento com essa medida do governo indiano. Para se ter uma ideia, tínhamos contratado o embarque de 10 toneladas, nosso parceiro nos disse que mandaria 5 toneladas, agora não vem mais nada. Esse produto viria por avião e não vem mais. Temos que entender bem essa medida”, afirmou o executivo.
Segundo ele, esse insumo é usado em um medicamento que está dentro do programa Farmácia Popular e o estoque do insumo dura mais 10 dias. “Mas, temos estoques do medicamento pronto e isso para 60 dias. Não haverá desabastecimento no curto prazo.” A empresa fabrica medicamentos para o programa farmácia popular.
Na Cellera Farma 70% dos insumos usados na produção vêm da Índia. Segundo o presidente da companhia, Omilton Visconde Júnior, até o meio deste ano, os embarques desses insumo estão confirmados, mas “há dificuldades logísticas dentro do país.” A preocupação, diz ele, é de que as remessas de produtos sejam barradas pelo governo local. “Se parar os embarques, vamos produzir o que? Vai ser difícil não ter falta de algum medicamento no médio prazo. E não é somente aqui no Brasil, é no mundo. A Índia é um grande fornecedor mundial”, afirmou.
Já a farmacêutica sul-africana Aspen avalia que o desabastecimento será pontual. O presidente, Alexandre França, disse que algumas empresas têm a Índia como principal fornecedor, mas boa parte das farmacêuticas locais já usam insumos chineses. “Como a China está voltando aos poucos, não acredito em um grande desabastecimento no nosso mercado. Haverá sim, em alguns produtos que usam princípio ativo indiano. Até porque não podemos substituir um fornecedor por outro se houver problema de falta de insumo.”
Fonte: Valor Econômico 30.03.2020
