Investimentos públicos e privados impulsionam cadeia produtiva nacional de IFAs, antes altamente dependente de importações
Após décadas de queda na produção nacional de insumos farmacêuticos ativos (IFAs), o Brasil começa a retomar sua capacidade produtiva e caminha em direção à autossuficiência nesse setor estratégico. Atualmente, apenas 5% dos IFAs utilizados no país são fabricados localmente, número muito distante dos 50% registrados há cerca de 30 anos. Esse cenário de forte dependência externa, agravado pela pandemia de Covid-19, reacendeu o debate sobre a necessidade de fortalecimento da indústria nacional.
Na tentativa de reverter esse quadro, diversas instituições públicas estão direcionando recursos e apoio técnico à produção nacional. A Finep (Financiadora de Estudos e Projetos) recebeu 113 pedidos de financiamento voltados à produção de IFAs, dos quais 20 já foram aprovados, totalizando R$ 218 milhões. Já o BNDES, que nos últimos dois anos ampliou de R$ 1,77 bilhão para R$ 4,23 bilhões os aportes em projetos voltados à saúde, também tem priorizado investimentos na cadeia de insumos farmacêuticos.
A Embrapii (Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial), por sua vez, também intensificou o apoio à inovação na área. Segundo Igor Bueno, gerente do departamento de saúde da Finep, só em 2023 foram lançados editais que somaram R$ 700 milhões voltados à pesquisa e desenvolvimento em saúde, com foco especial nos IFAs. Na esfera privada, a procura também foi significativa: cerca de R$ 500 milhões em projetos foram submetidos, mas, devido a limitações orçamentárias, apenas R$ 50 milhões foram disponibilizados — resultando na aprovação de cinco projetos envolvendo empresas como Blanver, Wecare, Aptah e Nintx.
A indústria também dá sinais de reação. Em fevereiro, a Anvisa autorizou a Bionovis a produzir 100% do IFA para o medicamento Infliximabe, utilizado no tratamento da doença de Crohn e outras patologias. O investimento da farmacêutica foi de R$ 800 milhões, com a expectativa de fornecer anualmente 260 mil frascos do medicamento, reforçando a produção local e reduzindo a dependência de importações.
Segundo Norberto Honorato Prestes Junior, presidente da Abiquifi, a iniciativa representa um passo fundamental para o fortalecimento da soberania sanitária do país. “É o IFA que promove a cura de uma doença. E hoje, ainda somos 95% dependentes do exterior”, alerta.
Com o impulso de iniciativas público-privadas, o Brasil busca não apenas ampliar sua capacidade industrial, mas também fortalecer sua posição estratégica na área da saúde, assegurando maior estabilidade e independência frente a possíveis crises globais no futuro.