Análise da Peers Consulting mostra expansão de receita, margens e lucros na RD Saúde, Pague Menos e Panvel impulsionada pela normalização de estoque das canetas emagrecedoras
O primeiro trimestre de 2026 consolidou o cenário de forte expansão para o varejo farmacêutico nacional. De acordo com um relatório setorial divulgado pela consultoria Peers Consulting + Technology, com dados de inteligência de mercado da IQVIA, o setor registrou um crescimento consolidado de 14,8% no acumulado do trimestre em comparação ao mesmo período anterior. O principal motor desse avanço foi o mês de março, que apresentou um salto de 20,4% nas vendas das drogarias, impulsionado diretamente pela normalização do abastecimento das canetas emagrecedoras e pelo avanço expressivo dos canais digitais de venda.
A consolidação do setor segue acelerada e beneficia principalmente os grandes players, que registraram avanços em suas operações de curto e longo prazo. A categoria de medicamentos GLP-1 deixou de ser um nicho em aceleração para se tornar um pilar estrutural do mercado. A expectativa da consultoria é que o mercado brasileiro de análogos de GLP-1 salte de R$ 11 bilhões para R$ 20 bilhões até o fechamento de 2026, impulsionado pelo fim da patente da semaglutida, ocorrido em março deste ano, o que abre espaço para versões genéricas e biológicas com preços até 50% menores e margens comerciais mais atrativas para as redes.
Análise do desempenho financeiro e operacional das grandes redes
Os resultados individuais das companhias no trimestre refletem a eficácia dessas novas alavancas de crescimento. A liderança em faturamento permaneceu com a RD Saúde, que reportou uma receita bruta de R$ 12,0 bilhões, registrando expansão de 20% em relação ao primeiro trimestre do ano anterior. Esse avanço foi sustentado por um indicador de vendas em mesmas lojas de 14,0%. No campo da rentabilidade, a rede obteve um EBITDA ajustado de R$ 820,7 milhões, com margem operacional de 6,9% (alta de 0,6 ponto percentual), resultando em um lucro líquido ajustado de R$ 299,7 milhões, o que representa um salto de aproximadamente 70%. A companhia encerrou o período operando uma base de 3.614 unidades e consolidou 30,0% de suas vendas por meio de seus canais digitais, mantendo sua estrutura financeira equilibrada com uma alavancagem de 1,2x na relação dívida líquida por EBITDA.
A Pague Menos apresentou a maior recuperação percentual de rentabilidade do setor, com o seu lucro líquido ajustado saltando 325% e atingindo R$ 55,6 milhões no trimestre. A receita bruta consolidada da rede cresceu 14,4%, chegando a R$ 3,6 bilhões, impulsionada por um crescimento de 13,0% no conceito de mesmas lojas. O EBITDA ajustado atingiu R$ 204,7… milhões, expandindo sua margem em 0,8 ponto percentual para 4,9%. Operando com uma base estável de 1.688 lojas, a Pague Menos avançou de forma expressiva na digitalização, que passou a representar 22,2% do faturamento total. A empresa também demonstrou forte disciplina financeira ao reduzir significativamente seu endividamento, baixando a alavancagem para 1,9x.
O Grupo Panvel, mantendo sua tradicional solidez regional, registrou uma receita bruta consolidada de R$ 1,57 bilhão, o que representa uma evolução de 15,8% no período. As vendas em mesmas lojas avançaram 11,5%, ritmo ligeiramente menor que o de seus pares devido a uma base de comparação anual mais exigente. O lucro líquido ajustado alcançou a marca recorde de R$ 38,5… milhões, com crescimento de 38,1%, enquanto o EBITDA ajustado somou R$ 81,2 milhões, com margem estável de 5,2% (alta de 0,4 ponto percentual). A rede gaúcha encerrou março com 661 unidades em funcionamento e destacou-se pela penetração do canal digital, que atingiu 28,5% do faturamento, além de reportar o menor nível de endividamento do varejo farmacêutico, com uma alavancagem de apenas 0,88x.
Estratégias corporativas e alavancas de crescimento
A RD Saúde destacou-se pela forte geração de caixa e rigor no controle de despesas gerais e administrativas, mantidas em 2,5% da receita. A produtividade mensal por loja da rede subiu para R$ 1,15 milhão, apoiando a redução da alavancagem e o lucro líquido recorde. Na Pague Menos, a categoria GLP-1 já responde por 9,1% de seu faturamento total, elevando de forma consistente o ticket médio das transações e acelerando a captura de margem a partir do mix de produtos.
O Grupo Panvel manteve sua consistência com lucro recorde e o menor nível de endividamento entre os pares. A rede gaúcha registrou um salto de 95,5% nas vendas via aplicativo e expandiu sua receita de varejo com a marca própria Produtos Panvel, que atingiu 19,1% de participação no segmento de Higiene e Beleza. Na Panvel, os produtos GLP-1 já representam mais de 10% do faturamento do varejo, demonstrando um crescimento de 80% na demanda desta categoria no trimestre.
Desafios macroeconômicos e riscos no horizonte
Apar do ciclo positivo, a análise da Peers aponta que o mix de vendas concentrado em medicamentos de marca de alto custo pressiona temporariamente a margem bruta do setor, cenário que só deve se dissipar à medida que os genéricos de GLP-1 ganhem escala comercial e aprovações regulatórias na Anvisa. Adicionalmente, as redes enfrentam o desafio de manter o crescimento do consumo discricionário (perfumaria e cosméticos) exposto a um cenário macroeconômico de juros reais elevados e endividamento das famílias, o que exige o uso intensivo de ferramentas de CRM orientadas por dados e estratégias de omnicanalidade para fidelizar a base ativa de consumidores.