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    Saúde & Bem-estar

    Uso de medicamentos é melhor que o de corrente elétrica, contra a depressão.

    By Editor chefe04/08/2017Updated:04/08/2017Nenhum comentário5 Mins Read
    Um estudo recém-publicado no New England Journal of Medicine põe em dúvida a eficácia do tratamento contra a depressão que tem como pressuposto estimular áreas do cérebro com correntes elétricas de baixa intensidade.

    A técnica, conhecida como estimulação cerebral de corrente contínua (tDCS, da sigla em inglês), era considerada alternativa promissora para casos de depressão. No novo estudo, pesquisadores do Hospital Universitário da Universidade de São Paulo (USP) e do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP demonstraram que a eficácia da tDCS é inferior ao uso de escitalopram, um medicamento antidepressivo.

    Para isso, André Brunoni, livre-docente do Departamento de Psiquiatria da FMUSP e diretor do Serviço de Neuromodulação Interdisciplinar do Instituto, e equipe dividiram aleatoriamente 245 pacientes com depressão em três grupos.

    Um grupo foi tratado com tDCS e pílulas placebo, outro recebeu tDCS simulado (“sham”) e o medicamento antidepressivo. O terceiro grupo recebeu tDCS simulado e placebo.

    O tratamento durou 15 dias consecutivos, com sessões de 30 minutos cada, e depois uma vez por semana durante sete semanas. O antidepressivo de primeira linha foi administrado diariamente durante três semanas. Em seguida, a dose diária foi aumentada de 10 mg para 20 mg, em mais sete semanas de acompanhamento.

    O estudo teve apoio da FAPESP por meio do Programa Jovens Pesquisadores em Centros Emergentes.

    “Definimos que a taxa de não inferioridade da estimulação em relação ao antidepressivo seria de no mínimo 50%, ou seja, a estimulação teria que ter no mínimo 50% da eficácia do medicamento, mas não foi o que ocorreu. Descobrimos que a eficácia do tDCS não chega à metade da eficácia do tratamento medicamentoso. A conclusão é que a estimulação não deve ser usada como um tratamento de primeira linha. O medicamento representa um tratamento fácil e bem mais eficaz. Por outro lado a tDCS foi superior ao placebo, de acordo com nossas pesquisas prévias”, disse Brunoni à Agência FAPESP.

    A depressão atinge de 12% a 14% da população mundial e atualmente é relativamente fácil encontrar sites e vídeos na internet no estilo “faça você mesmo” com supostas técnicas caseiras de estimulação elétrica de corrente direta.

    “É algo impressionante. Esses sites que supostamente ensinam a fazer a estimulação cerebral representam um risco enorme ao paciente com depressão. As soluções caseiras são altamente contraindicadas. É um perigo. Acredito que nosso estudo terá efeito nesse fenômeno, agora que provamos que há efeito colateral e que a eficácia não é tão boa assim como se acreditava”, disse Brunoni.

    De acordo com o estudo, pacientes que receberam tDCS apresentaram maiores taxas de vermelhidão na pele, além de tinitus (zumbido na cabeça) e afobação. Dois voluntários do estudo apresentaram episódio de hipomania durante o tratamento com tDCS.

    Terapia eletroconvulsiva

    Brunoni destaca que é preciso evitar confusão entre o tDCS e outros métodos como a terapia eletroconvulsiva (ECT). Nessa última, ocorre a liberação de descargas elétricas muito mais fortes – de 800 miliampères, ou 800 vezes maior que a da tDCS –, com o objetivo de desencadear convulsões controladas. Há ainda diferença em outros parâmetros. A ECT usa um tipo de corrente em forma de pulsos e o principal efeito clínico é a crise convulsiva.

    A estimulação cerebral de corrente contínua é colocada sobre o córtex dorsolateral pré-frontal do paciente, que é uma área que apresenta atividade diminuída em pessoas com depressão.

    “Pessoas deprimidas têm uma hipoatividade do cérebro nessa área, em especial, e em várias outras também. Acreditava-se que o mecanismo de ação da estimulação aumentaria a atividade cerebral nessa área, porém este efeito não foi comprovado, ainda”, disse.

    Há ainda outras técnicas relacionadas à alteração da atividade elétrica cerebral, que incluem estimulação magnética transcraniana, estimulação transcraniana por corrente alternada, terapia eletroconvulsiva, estimulação profunda do cérebro e ultrassonografia focada.

    “De todas essas, apenas a estimulação magnética transcraniana e a terapia eletroconvulsiva são atualmente aprovadas pela FDA [Food and Drug Administration] para o tratamento da depressão. A estimulação do cérebro profundo tem uma isenção de dispositivo humanitário para o tratamento do transtorno obsessivo-compulsivo”, disse Sarah H. Lisanby, diretora do National Institute of Mental Health (NIMH), em editorial na mesma edição do New England Journal of Medicine.

    Lisanby destaca o estudo feito no Brasil e defende a necessidade de um parâmetro para medir o funcionamento da tDCS. Brunoni concorda. “Não existe qualquer parâmetro para saber se a estimulação está na dose adequada. Sei que dois comprimidos é uma dose maior do que um. Além disso, existem drogas passíveis de serem medidas no sangue. O exemplo mais comum é o lítio. É possível dosar a estimulação magnética. Já na estimulação elétrica, não é o que se vê. É uma corrente elétrica muito pequena que pode sofrer alterações até por questões anatômicas de cada paciente”, disse.

    Brunoni agora está em pós-doutorado sênior na Universidade de Munique, na Alemanha, onde pretende terminar de analisar dados coletados de seu ensaio clínico.

    “Coletamos muitos dados sanguíneos, genéticos e de neuroimagem durante o estudo e agora vou terminar de analisá-los e investigar se existe um perfil de pacientes que responde melhor ao tratamento. Clinicamente, a olho nu, não há, mas acredita-se que pacientes pouco refratários (que não tentaram tratamentos prévios) responderiam melhor. Também pretendo questionar os próprios parâmetros da estimulação para tentar descobrir se existe um tipo de depressão que responde melhor a esse tipo de tratamento”, disse.

    O artigo Trial of Electrical Direct-Current Therapy versus Escitalopram for Depression (doi: 10.1056/NEJMoa1612999a), de Andre R. Brunoni, Adriano H. Moffa, Bernardo Sampaio-Junior, Lucas Borrione, Marina L. Moreno, Raquel A. Fernandes, Beatriz P. Veronezi, Barbara S. Nogueira, Luana V.M. Aparicio, Lais B. Razza, Renan Chamorro, Luara C. Tort, Renerio Fraguas, Paulo A. Lotufo, Wagner F. Gattaz, Felipe Fregni e Isabela M. Benseñor, pode ser lido por assinantes do New England Journal of Medicine em www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa1612999.

    Fonte: FAPESP 

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