Com crescimento de dois dígitos e avanço do e-commerce, farmácias ampliam portfólio, incorporam serviços de saúde e atraem novos players digitais
O varejo farmacêutico brasileiro encerrou 2025 em ritmo de forte expansão e com sinais claros de mudança estrutural. Segundo dados da IQVIA, com base em informações da Associação Brasileira de Farmácias e Drogarias (Abrafarma), o setor alcançou faturamento de R$ 240,97 bilhões no período, crescimento de 10,88% em relação ao ano anterior. Mais do que a evolução financeira, os números refletem a consolidação das farmácias como espaços multifuncionais, que extrapolam a venda de medicamentos e passam a operar como hubs de cuidado, conveniência e serviços.
O desempenho no ambiente digital reforça essa transformação. As vendas online das 29 redes associadas à Abrafarma somaram R$ 21,58 bilhões em 2025, avanço de 54,82% na comparação anual. Para Luciano Biagi, CEO da Sanfarma, fabricante de produtos para primeiros socorros e cuidados pessoais, o crescimento do canal está diretamente ligado às mudanças aceleradas durante a pandemia, quando o e-commerce ganhou escala e passou a integrar de forma definitiva a jornada do consumidor. Segundo o executivo, hoje a farmácia consegue levar para a casa do cliente a mesma experiência de atendimento oferecida no ponto físico.
Biagi destaca ainda a migração de categorias como dermocosméticos e cuidados infantis para o canal farmacêutico, ampliando a relevância das lojas no cotidiano dos consumidores. Esse movimento, segundo ele, aproxima o setor da lógica das grandes plataformas digitais, especialmente no que diz respeito à conveniência, rapidez de entrega e diversidade de portfólio. A expectativa é de que, nos próximos cinco a dez anos, o varejo farmacêutico passe por transformações ainda mais aceleradas, com foco em atendimento ágil e integração omnichannel.
A diversificação do mix de produtos tem sido um dos principais motores desse crescimento. Dados da IQVIA indicam que, embora os medicamentos sigam como principal fonte de receita, categorias como dermocosméticos, saúde sexual, cuidados ao paciente e itens de autosserviço ganharam protagonismo. Essa ampliação fortalece a relação de confiança com o consumidor e resgata o papel histórico da farmácia de bairro, agora adaptada a um contexto mais tecnológico e orientado à experiência.
Na avaliação de Biagi, as farmácias caminham para um modelo cada vez mais próximo ao de marketplaces, com maior peso de marcas exclusivas e expansão de serviços como vacinação, testes rápidos, autotestes e exames laboratoriais de baixa complexidade. Essa estratégia amplia o ticket médio, aumenta a frequência de visitas e posiciona o canal como elo central entre varejo e saúde.
O interesse de grandes players digitais também reforça o potencial do setor. Em 2025, o Mercado Livre intensificou sua atuação na vertical de farmácias, apontando a categoria como uma das frentes estratégicas para expansão do e-commerce no país. No mercado internacional, a Amazon segue ampliando sua presença em saúde desde a aquisição da PillPack, em 2018, e recentemente anunciou iniciativas que integram atendimento médico, retirada presencial de medicamentos e suporte farmacêutico virtual.
Outro fator relevante para o dinamismo do setor é a expectativa em torno dos medicamentos para obesidade. Com a expiração da patente da semaglutida prevista para março, a entrada de versões genéricas deve impulsionar o mercado de terapias à base de GLP-1 no Brasil. Relatório do Itaú BBA aponta potencial de crescimento semelhante ao observado nos Estados Unidos, onde a categoria já alcançou ampla adesão.
Para o varejo, a chegada dos genéricos tende a reduzir barreiras de acesso, ampliar o público consumidor e melhorar a rentabilidade, especialmente para lojistas de menor porte. A redução de custos e a possibilidade de margens mais equilibradas devem beneficiar tanto o consumidor final quanto a cadeia de distribuição.
Diante desse cenário, o varejo farmacêutico se consolida como um dos segmentos mais dinâmicos do comércio brasileiro, combinando crescimento econômico, inovação em serviços e uma integração cada vez maior entre saúde, tecnologia e experiência do consumidor.