Pandemia de coronavírus vai afetar o cronograma do segundo semestre
A farmacêutica brasileira Cimed deve rever a data de alguns lançamentos de medicamentos, previstos para o segundo semestre, em função da pandemia do novo coronavírus. O plano era colocar no mercado 40 medicamentos, entre novas moléculas e extensão de linha. No primeiro semestre serão 20 produtos.
Segundo João Adibe, presidente da empresa, a possibilidade de não receber parte dos insumos importados da Índia, a partir de junho, tem feito a companhia reavaliar os planos. Adibe informa que 70% do que consome vem da Índia. “Insumo é 10 vezes mais preocupante que o reajuste de medicamentos. O primeiro impacto na importação foi no frete. Já sentimos esse aumento, que foi em torno de 500%, isso porque a malha aérea no mundo inteiro diminuiu. Vamos pagar para não parar a produção. A alta nos custos é o grande dilema que vamos viver agora”, disse Adibe.
A Cimed é uma das maiores fabricantes de medicamentos do país. Por mês a farmacêutica produz 40 milhões de unidades. “Sofremos por três meses com a situação da China, agora com a Índia. Hoje, não se envia nada de lá. O volume de embarque dos fornecedores indianos é grande para o mundo inteiro. A parada dessas exportações, lá na frente, vai trazer o desabastecimento na maioria dos mercados”, afirmou o executivo.
Adibe disse, ainda, que quando a economia mundial entrar em recuperação, depois das medidas de restrição tomadas pelos países para conter o avanço da covid-19, o Brasil pode ser preterido por fornecedores indianos e chineses nas compras de insumos farmacêuticos. “Talvez ocorra preferência por moedas fortes. É uma preocupação de quanto vai custar a matéria-prima com o mundo todo comprando o produto. O Brasil é o sétimo mercado mundial, há seis na nossa frente. E como vamos lidar com isso?”, questiona o executivo.
Adibe disse que os lançamentos programados para este semestre são de medicamentos que já estavam em estoque na farmacêutica. Por causa disso, a empresa decidiu antecipar a entrada de novos medicamentos, como o genérico da lozartana, um remédio indicado para o controle da pressão arterial. “Pelo nosso planejamento, vamos lançar no primeiro semestre todos os medicamentos isentos de prescrição. O lozartana vamos antecipar a apresentação para este mês, porque já tínhamos em estoque. Agora, produtos de higiene e medicamento genérico estamos avaliando o andamento da situação no país.”
Outro produto que chega esse mês às farmácias é um complexo vitamínico, que contém os cinco principais componentes para melhorar a imunidade em dosagem máxima, segundo o executivo. “Esse produto iríamos lançar em maio, mais próximo do inverno, mas decidimos antecipar em um mês em razão da procura por vitaminas depois da pandemia do novo coronavírus. As vendas desse tipo de produto têm aumentado muito nos últimos tempos”, disse Adibe.
O executivo ressaltou que no primeiro trimestre a Cimed obteve receita de R$ 390 milhões, o que representa aumento de 12% em relação ao mesmo período do ano passado. “Vamos ter que reavaliar os nossos custos, com a alta da dólar nesse período e as matérias-primas. Para se ter uma ideia, 33% do nosso custo são os insumos importados.” A previsão de alcançar o faturamento de R$ 2 bilhões neste ano se mantém, segundo Adibe, mas o executivo, diz que 15% das vendas vêm dos lançamentos das farmacêuticas. “Como manter o negócio saudável perdendo margem?”
Fonte: Valor Econômico 03.04.2020
