Embora Keytruda mantenha liderança anual com US$ 31,6 bilhões, mercado farmacêutico registra reconfiguração com avanço da Eli Lilly e proximidade de quebra de patentes
O mercado farmacêutico global registrou transformações estruturais profundas no fechamento do consolidado anual, com as terapias voltadas ao metabolismo e à imunologia ditando o ritmo de crescimento do setor. De acordo com o levantamento internacional da Script Commercial News & Insights, o imunoterápico Keytruda (pembrolizumabe), da Merck & Co, segurou o posto de medicamento mais vendido do mundo ao faturar US$ 31,6 bilhões, uma evolução de 7%. Contudo, o cenário regulatório e comercial aponta para o fim de uma era, uma vez que a perda de exclusividade da patente do principal ativo oncológico da companhia está prevista para 2028, mobilizando o desenvolvimento de versões subcutâneas como o Keytruda Qlex para mitigar a erosão de receita.
A grande força motriz do setor concentrou-se no portfólio de agonistas de receptores de GLP-1 e GIP da Eli Lilly. O Mounjaro (tirzepatida) dobrou seu faturamento e assumiu a vice-liderança global, superando o rival Ozempic (semaglutida), da Novo Nordisk, que caiu para a terceira posição e dita sinais de estabilização de teto comercial na indicação para diabetes. O desempenho da Eli Lilly foi complementado pelo avanço do Zepbound, voltado para o tratamento da obesidade, que realizou uma escalada recorde ao saltar da 34ª para a 9ª posição no ranking mundial, somando US$ 13,6 bilhões em vendas anuais.
A disputa pelo mercado de obesidade e o avanço da imunologia
A liderança da Eli Lilly no segmento de redução ponderal consolidou-se após dados clínicos demonstrarem maior eficácia terapêutica em perda de peso em comparação aos concorrentes diretos, além de decisões regulatórias do FDA que restringiram o mercado de formulações manipuladas de tirzepatida. Logo atrás, ocupando a 10ª posição, o Wegovy (semaglutida), da Novo Nordisk, alcançou US$ 12 bilhões em vendas. Apesar de enfrentar barreiras de suprimento e concorrência com compostos genéricos ao longo do ano, a farmacêutica dinamarquesa expandiu o portfólio da marca com o lançamento pioneiro de uma versão oral em comprimido e a aprovação de uma nova indicação para esteatohepatite associada à disfunção metabólica (MASH).
Para além do mercado metabólico, o grupo de blockbusters de alta complexidade mantém o setor em patamares financeiros robustos:
• Dupixent (Sanofi): O imunofármaco representou 37% do faturamento da companhia francesa, impulsionado por expansões comerciais em oito indicações dermatológicas e respiratórias.
• Skyrizi (AbbVie): O anticorpo monoclonal focado em doenças inflamatórias crônicas (como psoríase e doença de Crohn) atingiu a 5ª colocação global, respondendo por um terço das vendas totais da biofarmacêutica.
• Darzalex (Johnson & Johnson): Consolida sua relevância em hematologia oncológica, alcançando US$ 14,4 bilhões impulsionado por novas aprovações regulatórias para mieloma múltiplo latente de alto risco.
Transição de portfólio e expiração de patentes
O redesenho do ranking também evidencia o ciclo de declínio de franquias tradicionais devido a fatores jurídicos e regulatórios. O anticoagulante Eliquis, copropriedade da Bristol Myers Squibb e Pfizer, registrou vendas de US$ 14,4 bilhões, mas enfrenta a iminência de genéricos na Europa e nos EUA, além dos impactos das negociações de preços do programa de saúde norte-americano Medicare.
Em contrapartida, no mercado de antivirais, a Gilead garantiu a proteção de mercado do Biktarvy (tratamento para HIV) até 2036 por meio de acordos de litígio, faturando US$ 14,3 bilhões. A própria companhia prepara a transição de seu market share para o Yeztugo (lenacapavir), primeira terapia de prevenção de HIV com administração semestral. Essa dinâmica de cisões de divisões de consumo e o surgimento de entidades independentes vêm democratizando os orçamentos de pesquisa e desenvolvimento, permitindo que o capital seja alocado de forma direta na inovação de moléculas de alta margem e no atendimento a demandas de nichos de alta complexidade.