Rede de farmácias é avaliada em R$ 700 milhões; grupo Ultra pagou R$ 1 bilhão em ações em 2013
A Pague Menos, a maior rede de farmácias do Norte e Nordeste do país, comprou a concorrente Extrafarma, controlada pelo grupo Ultra por R$ 700 milhões – incluindo R$ 100 milhões em dívidas, segundo uma fonte. A operação coloca a Pague Menos como a segunda rede do país, em número de lojas. A mantém na terceira posição em receita anual, mas mais perto da Drogarias Pacheco São Paulo (DPSP), com diferença em vendas entre elas de cerca de R$ 1 bilhão.
O pagamento será feito em três parcelas: 50% na data de fechamento do negócio, e outras duas parcelas de 25% do total no aniversário de um e de dois anos da aquisição. Em vídeo encaminhado a funcionários no fim do dia de ontem, o presidente da Pague Menos, Mário Queirós, disse que a aquisição antecipa em três anos o plano de crescimento da empresa.
O Ultra entrou no varejo farmacêutico em 2013, com a compra da Extrafarma, que tinha cerca de 200 lojas à época – hoje tem o dobro disso. O grupo pagou R$ 1 bilhão em ações pelo negócio, então controlado pela família Lazera.
A Ultrapar declarou que está revendo seu portfólio, com foco nos setores de óleo e gás (ver abaixo).A Pague Menos pretende manter as duas marcas -Pague Menos e Extrafarma, separadamente.
Com a operação, a Pague Menos tenta “fechar” os mercados no Nordeste, sua área dominante, onde a concorrência com a Raia Drogasil cresceu de forma acelerada nos últimos anos. A participação de mercado da Pague Menos no Nordeste deve crescer de 19,5% para 23,3%, informou a cadeia. No Norte, o avanço vai de 9,9% para 18,9%. No mercado nacional, a fatia aumenta de 5,7% para 7%.
O lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (ebitda) deve crescer entre R$ 150 milhões e R$ 250 milhões anuais, dos quais 80% devem ser capturados em dois anos. A margem bruta da Extrafarma é de 28%. A da Pague Menos, 31%, e a intenção é elevar ao nível da Pague Menos.
O processo de venda da Extrafarma teve início em 2019, mas foi paralisado por conta da pandemia, informou uma fonte. O Bradesco BBI e o escritório de advocacia Mattos Filho assessoraram o Ultra nesse processo. A Pague Menos contratou a Lefosse Advogados, sem bancos.
O presidente da Pague Menos afirmou, no vídeo aos funcionários, que as operações se manterão separadas até o caso ser avaliado pelo órgão antitruste (Cade) – isso pode levar de 6 a 9 meses.
Foi criado um time de integração a ser liderado pelo executivo José Rafael Vásquez, vice-presidente de operações da Pague Menos. ”Vásquez começa a trabalhar já agora, porque até a aprovação ele vai cuidar do planejamento e após a aprovação vai implementar a execução, apoiado pela consultoria McKinsey”, disse Queiroz.
Dificuldade em operar no varejo de farmácias do Norte e Nordeste, altamente competitivo e perfil de consumo diferente das praças no Sudeste e Sul, acabaram afetando os planos da Extrafarma. “A operação de varejo de drogarias é bem diferente de tudo que o Ultra já tocou. Eles deram um prazo, mudaram a gestão, mas o negócio não deslanchava”, disse um ex-consultor da Extrafarma.
O Valor apurou que nos relatórios enviados a interessados na Extrafarma, o ebitda (incluindo despesas de aluguel) chegou próximo de zero em 2020, e para este ano, a previsão era de R$ 30 milhões.
Em 2020, as vendas brutas da Extrafarma atingiram R$ 2,1 bilhões, um recuo de 3%, com perda de mercado. Neste ano, até março, a venda caiu 1%.
A Pague Menos vendeu R$ 7,3 bilhões no ano passado, com expansão de 7,6%. De janeiro a março, a receita subiu 8,3%, abaixo do ritmo de rivais de capital aberto como Panvel e Raia Drogasil. Tinha R$ 480 milhões no caixa em março. A dívida líquida era de R$ 350 milhões. O endividamento é baixo, equivalente a 0,6 vezes o ebitda.
A aquisição mantém a Pague Menos na terceira colocação entre as maiores redes de farmácia do país em receita bruta, atrás de Raia Drogasil (RD) e de DPSP. Porém, aproxima mais a empresa da DPSP. Somadas, Pague Menos e Extrafarma registraram receita bruta de R$ 9,4 bilhões em 2020. A DPSO faturou quase R$ 10,5 bilhões no ano passado, também em valores brutos, apurou o Valor. A líder em receita, lucro e total de lojas é a RD, com R$ 21,2 bilhões em vendas e 2,3 mil drogarias.
Em número de lojas, Pague Menos e Extrafarma se tornam a segunda maior, somando pouco mais de 1,5 mil, versus 1,36 mil da DPSP. Mas a DPSP permanece mais produtiva que a concorrente, pois faz mais venda por ponto. Juntas, as duas cadeias ainda acumulam lucro antes de juros, impostos amortização e depreciação de cerca de R$ 650 milhões, considerando dados de 2020.
As ações ordinárias da Pague Menos fecharam em alta de 9,59% ontem, cotadas a R$ 11,77. Antes da abertura do pregão na B3, a agência Reuters noticiou que a Pague Menos estava negociando a compra da Extrafarma. A cotação da Pague Menos ficou entre R$ 11,65 e R$ 12,30 durante o dia e o volume financeiro de R$ 46,8 milhões, com 7,8 mil negócios. (Colaboraram Maria Luíza Filgueiras e Manuela Tecchio).
Fonte: Valor Econômico 19.05.2021
