Pesquisadores da área de biotecnologia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) avançam no desenvolvimento de uma terapia inovadora que pode representar uma nova alternativa no tratamento de uma das complicações mais graves associadas ao transplante de medula óssea.
O tratamento experimental tem apresentado resultados iniciais promissores no controle da doença do enxerto contra o hospedeiro (DECH), condição que pode evoluir para quadros severos e até levar ao óbito.
A DECH ocorre quando células imunológicas provenientes da medula do doador passam a reconhecer o organismo do receptor como estranho e atacam tecidos do próprio paciente. A doença pode se manifestar de forma aguda, geralmente nos primeiros 100 dias após o transplante, ou evoluir para a forma crônica, que pode surgir meses ou até anos depois do procedimento.
Nos casos agudos, os principais órgãos afetados são a pele e o sistema gastrointestinal, provocando sintomas como irritações cutâneas, náuseas, cólicas e alterações no funcionamento do fígado.
Já na forma crônica, o quadro pode se espalhar por todo o organismo, resultando em complicações como rigidez muscular, dificuldades respiratórias e lesões na pele.
Atualmente, o tratamento padrão é baseado no uso de corticosteroides, medicamentos que reduzem a inflamação e ajudam a controlar a resposta imunológica. No entanto, parte dos pacientes não responde adequadamente a essas terapias iniciais, sendo necessário recorrer a imunossupressores mais potentes, que podem causar efeitos colaterais relevantes.
Como alternativa, a equipe da PUCPR desenvolve a terapia denominada MesenCell, que utiliza células-tronco mesenquimais obtidas da medula óssea de doadores. Essas células são processadas em laboratório e armazenadas para uso clínico, com o objetivo de modular a resposta imunológica do paciente. Segundo a coordenadora do projeto no Centro de Tecnologia Celular da universidade, Carmen Kuniyoshi Rebelatto, a abordagem busca atuar na origem da doença, reduzindo a atividade das células responsáveis pelo ataque ao organismo e ajudando a controlar a inflamação.
Em estudos preliminares com pacientes, o tratamento apresentou resultados encorajadores. Em um grupo-piloto, parte dos participantes teve remissão completa, além de melhorias expressivas em sintomas gastrointestinais e recuperação de manifestações cutâneas, inclusive em casos considerados graves. A pesquisa também observou efeitos positivos em quadros de comprometimento da pele, incluindo situações de endurecimento tecidual que limitam a mobilidade.
Segundo os pesquisadores, houve reversão parcial desse processo em parte dos casos avaliados. Uma nova fase de testes clínicos deve começar em setembro, com participação de pacientes em três centros de referência no Paraná, incluindo hospitais universitários e unidades especializadas em oncologia e transplantes.
O projeto conta com financiamento de instituições públicas de fomento à pesquisa, como a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). A expectativa da equipe é, no futuro, viabilizar a produção em larga escala por meio de parcerias com a indústria farmacêutica.