Nova diretriz reforça gestão de riscos psicossociais nas farmácias e impulsiona estratégias mais estruturadas de cuidado com colaboradores.
A recente atualização da NR-1 traz novos desdobramentos para o varejo farmacêutico ao ampliar o escopo da gestão de riscos ocupacionais e incluir de forma mais clara os chamados riscos psicossociais. A mudança reforça a necessidade de que empresas passem a considerar, de maneira estruturada, fatores relacionados à saúde mental no ambiente de trabalho.
No contexto das farmácias, isso envolve aspectos como pressão por metas comerciais, jornadas prolongadas, interação constante com o público e possíveis situações de conflito com clientes — elementos que podem impactar diretamente o bem-estar dos colaboradores. Segundo Viviane Alvarenga, diretora de Gente & Gestão da Febrafar e da Farmarcas, a nova diretriz não deve ser interpretada como um fator de preocupação para as empresas, mas como um avanço na profissionalização da gestão de pessoas no setor.
De acordo com a executiva, a norma reforça que o gerenciamento de riscos precisa ser contínuo, documentado e alinhado à estratégia do negócio. Para o varejo farmacêutico, isso representa uma evolução do modelo tradicional de saúde ocupacional, que historicamente priorizava riscos físicos, como ergonomia e segurança, para uma abordagem mais abrangente que também considere fatores emocionais e organizacionais.
Entre as principais medidas recomendadas para adaptação às novas diretrizes estão a atualização do Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), o mapeamento estruturado de riscos psicossociais, o envolvimento de lideranças no processo e a formalização das ações preventivas adotadas pelas empresas. Na prática, a implementação exige integração entre áreas como recursos humanos, segurança do trabalho, jurídico e gestão operacional.
Especialistas também destacam que muitas redes já desenvolvem iniciativas voltadas ao bem-estar dos colaboradores, como pesquisas de clima organizacional, programas de escuta interna, revisão de metas e capacitação de gestores para identificar sinais de esgotamento. A atualização da norma, nesse sentido, reforça a necessidade de sistematizar e registrar essas práticas.
O debate ganha relevância diante do crescimento dos afastamentos relacionados à saúde mental no país. Dados do Ministério da Previdência Social indicam que, em 2025, foram concedidos mais de 546 mil benefícios por incapacidade temporária relacionados a transtornos mentais e comportamentais — o maior volume já registrado na série histórica. Ansiedade e depressão seguem entre as principais causas de afastamento.
Informações do SmartLab, iniciativa ligada ao Ministério Público do Trabalho e à Organização Internacional do Trabalho, também apontam que transtornos mentais já figuram entre os principais motivos de concessão de benefícios previdenciários no Brasil.
No varejo farmacêutico, o tema se torna ainda mais sensível devido à combinação de fatores como responsabilidade técnica do farmacêutico, contato frequente com pacientes em situações de vulnerabilidade, exigências regulatórias e rotinas operacionais intensas.
Nesse cenário, especialistas apontam que a atualização da NR-1 deve ser encarada não apenas como uma exigência regulatória, mas como uma oportunidade estratégica. Empresas que estruturam políticas de cuidado com os colaboradores tendem a reduzir índices de afastamento, fortalecer o engajamento das equipes e criar ambientes de trabalho mais sustentáveis no longo prazo.