O mercado farmacêutico brasileiro deve passar por uma atualização no tratamento da insônia com a chegada dos duplos dos receptores de orexina (DORA), uma nova classe terapêutica que amplia as alternativas às tradicionais.
Entre os primeiros representantes dessa categoria está o lemborexante, aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e que será comercializado no país com o nome Dayvigo pela farmacêutica Eisai. Outro movimento estratégico envolve a parceria entre a EMS e a empresa suíça Idorsia para introdução do daridorexanto no mercado nacional, ainda em processo de avaliação regulatória.
Diferentemente das terapias convencionais, que atuam sobre o neurotransmissor GABA, os medicamentos da classe DORA bloqueiam a ação da orexina — substância responsável por manter o estado de vigília. Esse mecanismo inovador tem sido associado a um menor potencial de dependência, tolerância e sintomas de abstinência, um dos principais pontos de atenção no uso prolongado de hipnóticos tradicionais.
Estudos clínicos indicam que os novos fármacos apresentam perfil de segurança consistente, com efeitos adversos predominantemente leves a moderados, como náuseas e alterações relacionadas ao sono REM. Ainda assim, especialistas alertam para possíveis efeitos residuais, como sonolência no dia seguinte e aumento do risco de acidentes.
Apesar de pertencerem à mesma classe, os medicamentos apresentam diferenças farmacocinéticas relevantes. O lemborexante, por exemplo, possui meia-vida mais longa, favorecendo a manutenção do sono, enquanto o daridorexanto tende a oferecer menor risco de sonolência residual. Outro composto da classe, o suvorexante, também pode integrar o portfólio disponível no país futuramente.
A entrada desses produtos no mercado brasileiro ainda depende de etapas regulatórias adicionais, como a definição de preços pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED). Atualmente, o acesso ocorre majoritariamente por importação, com custos elevados.
O avanço ocorre em um cenário de alta prevalência de insônia no Brasil, que afeta cerca de um terço da população adulta nas capitais. Paralelamente, o uso crescente de medicamentos como o zolpidem tem levantado discussões sobre segurança, especialmente devido ao risco de dependência e efeitos adversos associados ao uso inadequado.
Nesse contexto, a introdução dos antagonistas de orexina representa não apenas uma evolução terapêutica, mas também uma oportunidade estratégica para a indústria farmacêutica, ao atender à demanda por tratamentos mais seguros e alinhados às novas diretrizes de uso racional de medicamentos.