Com a expiração da patente em março de 2026, farmacêuticas nacionais aceleram investimentos e preparam a entrada de genéricos em um mercado bilionário de alto impacto.
A contagem regressiva para o fim da patente do Ozempic no Brasil inaugura uma nova fase para o mercado farmacêutico nacional. A partir de 20 de março de 2026, a semaglutida deixa de ser um produto exclusivo da Novo Nordisk, abrindo espaço para a entrada de genéricos e similares e desencadeando uma disputa bilionária entre grandes grupos da indústria.
O movimento tem potencial para transformar profundamente o acesso a tratamentos para diabetes tipo 2 e obesidade no país. Em 2023, o Ozempic alcançou um marco histórico ao registrar R$ 3,1 bilhões em vendas no Brasil, tornando-se o medicamento de maior faturamento anual já registrado no mercado nacional. Atualmente, o segmento de canetas injetáveis voltadas ao controle metabólico e à perda de peso movimenta cerca de R$ 11 bilhões por ano. Com a chegada de versões concorrentes, projeções indicam que esse volume pode atingir aproximadamente R$ 20 bilhões já em 2026.
Brasil antecipa a fase pós-patente
Apesar de ter sido aprovado no Brasil em 2018, o pedido de patente da semaglutida foi depositado em 2006. Uma mudança regulatória decisiva ocorreu em 2021, quando o Supremo Tribunal Federal derrubou a possibilidade de extensão automática de patentes em função de atrasos no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). A partir dessa decisão, ficou estabelecido o limite máximo de 20 anos contados a partir do depósito.
Tentativas da Novo Nordisk de estender a exclusividade até 2038 foram rejeitadas pelo Superior Tribunal de Justiça. Com isso, o Brasil passa a integrar o grupo de países que entrarão mais cedo no ciclo pós-patente da semaglutida, cenário que despertou o interesse imediato de fabricantes nacionais.
Indústria nacional acelera estratégias
Entre as empresas que se posicionam para a nova fase, a EMS aparece como uma das mais avançadas. A companhia investiu mais de R$ 1 bilhão em sua unidade de Hortolândia (SP) e afirma ter capacidade para produzir a semaglutida de forma integrada, do insumo ao produto final. Após lançar canetas similares em 2025, a farmacêutica planeja iniciar a comercialização assim que a patente expirar.
A estratégia inclui ambições globais. A EMS projeta faturamento anual de até US$ 4 bilhões no médio prazo, considerando o mercado brasileiro e exportações. Nos Estados Unidos, a empresa busca o status de first applicant, que pode garantir até 180 dias de exclusividade na venda do genérico.
A Cimed também aposta fortemente no segmento. Segundo o CEO João Adibe, a empresa pretende lançar sua versão imediatamente após o fim da proteção patentária. O projeto integra um portfólio de cerca de 150 novos produtos previstos para os próximos cinco anos, sustentado por um plano de investimentos de R$ 2 bilhões e a meta de alcançar R$ 10 bilhões em receita até 2030.
Outros grandes players acompanham o movimento. A Hypera Pharma, por meio da Neo Química, trabalha para obter o registro junto à Anvisa. A Eurofarma, por sua vez, adotou uma estratégia distinta ao firmar parceria com a própria Novo Nordisk para a distribuição e promoção de novas marcas de semaglutida biológica no país.
Novos entrantes e rearranjo competitivo
O interesse pelo mercado também mobiliza outros grupos. A Biomm fechou acordo exclusivo com a indiana Biocon, enquanto a Nexus anunciou investimento de R$ 60 milhões para a instalação de uma fábrica em Sorocaba (SP). Laboratórios como Prati-Donaduzzi e Teuto monitoram o cenário e avaliam seus próximos passos.
A expectativa é de que a competição resulte em redução significativa de preços, ampliação da produção nacional e aumento do acesso aos tratamentos. Atualmente, o consumo mensal de medicamentos à base de semaglutida gira em torno de 1 milhão de caixas, o que representa apenas 2,5% da população adulta obesa no Brasil. A entrada de genéricos tende a destravar uma demanda reprimida relevante.
Impactos além da indústria farmacêutica
Enquanto se prepara para a concorrência local, a Novo Nordisk mantém investimentos expressivos no Brasil, com mais de R$ 6,4 bilhões destinados à ampliação da fábrica de Montes Claros (MG). No cenário global, porém, a companhia enfrenta desafios: suas ações acumulam queda superior a 45% em 2025, enquanto a Eli Lilly avança com o Mounjaro, medicamento à base de tirzepatida.
Os efeitos da popularização desses tratamentos extrapolam o setor farmacêutico. Analistas já apontam mudanças no comportamento do consumidor, com reflexos em segmentos como alimentos e bebidas. Relatório recente da XP destacou o impacto estrutural de medicamentos como o Ozempic ao revisar a recomendação das ações da Ambev.
A transição das canetas emagrecedoras de um produto de nicho para uma solução de uso ampliado deve redesenhar o mercado nos próximos anos, consolidando a semaglutida como um dos principais vetores de crescimento e transformação da indústria farmacêutica no Brasil.