A liberação para comercialização do primeiro tratamento baseado em modificação genética de células do sistema imune pelo FDA é um marco histórico para a medicina mundial e pode levar a caminhos para a cura da leucemia linfoide aguda e outros tipos de tumores malignos com alto índice de letalidade; O oncologista Raphael Brandão, coordenador científico do Grupo Oncoclínicas e oncologista do Centro Paulista de Oncologia (CPO), comenta sobre este avanço
Foi anunciado no final da tarde de ontem (30/08) a aprovação pelo FDA – agência responsável pela regulamentação de medicamentos nos EUA – de um novo tratamento para casos de leucemia grave que atinge principalmente crianças e adolescentes. A medicação é chamada comercialmente de Kymriah (tisagenlecleucel), da farmacêutica suíça Novartis, e poderá ser uma opção para pacientes com até 25 anos diagnosticados com leucemia linfoide aguda que não respondem às terapêuticas atualmente usadas para combater a doença. Trata-se de uma imunoterapia combinada a engenharia genética – compondo um medicamento feito sob medida para cada paciente.
Para Raphael Brandão, coordenador científico do Grupo Oncoclínicas, a liberação de uso da medicação nos EUA representa uma importante evolução para o tratamento deste tipo de leucemia e deve abrir espaço para a aprovação de outras medicações similares, baseadas na chamada terapia gênica, para outros 40 tipos de câncer com alto índice de letalidade, incluindo linfomas, mieloma múltiplo, melanoma, tumores de pâncreas, intestino, ovário e pulmão.
“Essa nova medicação é feita a partir da retirada dos linfócitos T dos pacientes, que são como soldados responsáveis por evitar a invasão de inimigos ao nosso corpo – mas que por algum fator são ‘enganadas’ pelas células cancerígenas, levando ao surgimento de tumores malignos. Essas células do sangue são então reprogramadas em laboratório e reintroduzidas no organismo do paciente. Ao conferir esse ‘super poder’ para combater a doença, a nova terapia apresentou resultados que superaram a marca dos 80% de remissão em jovens com leucemia linfoblástica aguda”, explica o especialista, responsável por uma série de estudos de referência global sobre Imunoterapia e único brasileiro a assinar um capítulo no livro que é considerado a bíblia do assunto – “Cancer Immunotherapy Principles and Practice”, publicado pela Society for Immunotherapy of Cancer (SITC).
“Essa combinação de imunoterapia e engenharia genética permite customizar a dose exata necessária para cada caso, o que contribuí para sua alta taxa de eficácia. Ao promover uma resposta mais agressiva do sistema imunológico para destruir o tumor, todavia, foram idenficados alguns efeitos colaterais importantes, como febre alta e queda brusca da pressão. Ainda assim, a liberação do tisagenlecleucel representa uma nova e promissora era da medicina personalizada no combate ao câncer”, ressalta o Dr. Raphael Brandão.
